A canção que preparava o protesto também refletia o caos da cidade. A desigualdade que afastava era o mote para aproximar. Dos versos musicais, a realidade, que paralisa, mas não cala a voz.
Em 9 de novembro de 2000. Marcelo tentou impedir a ação de um grupo de criminosos contra uma mulher. Ele foi baleado nove vezes. Uma das balas atingiu a segunda vértebra torácica do baterista, deixando-o paraplégico. “Eu tinha 34 anos, virei uma curva e me vi assim. Tudo aconteceu muito rápido e a mente não consegue acompanhar”, lembrou em entrevista à jornalista Marília Gabriela, no SBT, exibida em 2014.
Yuca também fez a seguinte revelação sobre o assalto: “Na hora que tomei os tiros eu percebi que ficaria assim. Não perdi a consciência. Senti que o corpo não tinha mais o equilíbrio do tronco. Fiquei por algum tempo com o corpo muito debilitado. Depois veio o entendimento de como seria minha vida. O trabalho ajudou muito. E acho que hoje só agradeço. Eu queria aprender a ser alguém melhor pelo amor, e não pela dor. Pela dor todo mundo aprende.”
Após a tragédia que mudou a sua vida, o músico deixou a banda, O Rappa, em seguida, Yuca, intensificou seu lado ativista. Entre as ações sociais abraçadas por ele estava um trabalho realizado em cadeias ao longo de três anos, no qual levava filmes, livros e palestras aos presos. “Foi interessante me conectar com aquelas pessoas, pois quando eu entrava na cela, era um esforço grande. As portas são pequenas, o lugar lotado, eu sentia dores. E eles percebiam isso. E pensavam: ‘pô esse cara vem aqui ajudar pessoas que parecem com os que fizeram isso com ele”, conta. Em diversas entrevistas, o músico garantiu que não guardava rancor dos criminosos que atiraram contra ele.
A música sempre foi um refúgio na carreira, era possível questionar, cobrar, gritar, amar. As mais possíveis questões sendo traçadas em notas musicais. Yuca enfrentava problemas de saúde desde 2000.
E na noite desta sexta-feira 18, morreu o baterista e fundador da banda O Rappa, Marcelo Yuka, aos 53 anos. O compositor estava em coma em decorrência de infecções e de um AVC (acidente vascular cerebral) sofrido nos últimos dias do ano passado — o segundo em seis meses. Informando em nota, o hospital Quinta D'or.
O que descreve a passagem do músico é um relato de alma, mantendo um compromisso raro com a verdade de suas angústias e alegrias. Apesar das dores dos anos, Yuka manteve uma sensação de juventude pulsante que o fez seguir criando. E mesmo que sua história possa indicar o contrário, ele não abandonou a crença de que o melhor ainda está por vir.
Fontes: Folha de São Paulo, Revista Veja
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