Tom Zé explica a Tropicália


Para Tom Zé, as raízes da Tropicália não estão em Oswald de Andrade, em José Celso Martinez, na pop art, nos Beatles ou nos Rolling Stones. O movimento, na verdade, veio de um negócio chamado "lixo lógico". Trata-se de um fenômeno neurológico/cultural experimentado por aqueles que (como ele) nasceram no interior do Nordeste, alheios ao pensamento aristotélico e ao mundo ocidental. Conforme explica o baiano, eles, os tropicalistas, bebiam de um saber oral herdado dos árabes, até uns 7 ou 8 anos - quando a escola chegava para descortinar as maravilhas da cultura ocidental. Fascinada, a "moçárabe" jogava todo o aprendizado que veio antes, que, então, deixava o córtex cerebral para ir adormecer junto com as memórias desprezadas no hipotálamo. Segundo o compositor, o hipotálamo seria o lixão do cérebro, porém um lixo dotado de lógica própria. Daí o termo "lixo lógico".
Num certo ponto dos anos 1960, Caetano, Gil e o próprio Tom Zé finalmente toparam com a obra dos modernistas, com o teatro de vanguarda de Martinez, com os Mutantes. Para usar um termo comum, eles "abriram a mente", o que possibilitou a fuga do "lixo lógico" para o córtex. A tradição árabe, a bagagem interiorana, portanto, se fundiriam à revolução cultural vigente. Nascia a Tropicália.
O raciocínio de Tom Zé pode parecer confuso, mas, acredite, será o caminho mais fácil para quem tentar decifrar as letras no novo CD. Como, afinal, compreender neologismos como "analfatóteles" (analfabetos em Aristóteles)? "Tropicália Lixo Lógico" brinca com eles a todo instante, enquanto embaralha citações ("Domingo no parque sem documento/ Com Juliana-vegando contra o vento") e complexos conceitos (Segunda Revolução Industrial, elementarismo etc.). Por vezes, parece apenas divertir-se com efeitos fonéticos, sem temer o nonsense. "Parassá penteu escuta cá/ Parassá penteu escuta aqui/ Quando Baco bicou no barco/ Tinha Pigna, Campos in/ Celso Zeopardo/ Matinê par'o = Delfin/ Vi, vi, vi", canta o veterano em "Tropicalea Jacta Est".
Mas nada disso é estranho ao cancioneiro de Tom Zé, incansável experimentalista - e, decerto, o único expoente da Tropicália que baseou toda a sua carreira no rigor vanguardista do movimento. Nos anos 1970, enquanto os colegas Gal, Caetano e Gil enveredavam por trabalhos mais comerciais, ele seguiu gravando LPs herméticos, inclassificáveis, como o cult "Todos os Olhos". Por causa desse idealismo, passaria a década seguinte no mais completo ostracismo. Foi salvo por David Byrne, que o projetou em âmbito internacional por meio de seu selo de "world music" Luaka Bop.
Uma vez restabelecido no cenário musical, Tom Zé permaneceu um artista inquieto, desbravador; lançou álbuns de forte acento "avant-pop", ocasionalmente aliado a jovens músicos - talvez mais aptos a entender sua proposta sonora. "Tropicália Lixo Novo" não foge à regra. Produzido por Daniel Maia, o repertório agrega baiões dissonantes, guitarras pesadas, vinhetas anárquicas e arranjos à moda Rogério Duprat. Participam nomes da nova geração, como Emicida, Mallu Magalhães, Pélico e Rodrigo Amarante.

"Tropicália Lixo Lógico"

Tom Zé Distribuidora: independente 
Por Luciano Buarque de Holanda | De São Paulo Valor Econômico 14/09/12
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Comentários

  1. Parabéns pelo texto.
    Um pensamento completamente lúcido, uma vez que, já na Grécia, o mundo ocidental orientou-se em Platão e Aristóteles. Seguindo por Kant, Hegel e Descartes. Para Zé, Diógenes, Epicuro e Heráclito nos representariam melhor na Grécia, Espinosa e Nietzsche no agora, sendo eles libertadores da servidão humana no pensamento. Hipotálamo representa os afetos, a natureza.

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