O assunto gera opiniões diversas. Quem recorre à fraude
parece não ter consciência da ação que está cometendo. Mas a situação ainda é
pior do que a simples falsicação. Em muitos casos, o jovem que, para manter o
benefício da meia-entrada ativo, é capaz de burlar a lei forjando comprovantes
de matrícula, tendo atitudes nada éticas, é o mesmo que vai para as ruas
participar das manifestações pedindo um país sem corrupção.
Utilizando um certificado de matrícula fictício, com base
na facilidade encontrada para adulterar uma carteira oficial pela Internet, o
vendedor L.O, (que não quis se identificar) 23 anos, revela que falsificou a
carteira por achar os ingressos com valores fora de sua realidade finaceira e
diz não achar nada de grave em participar dos protestos. “O preço dos ingressos
hoje é tão absurdo que eu me vejo obrigado a usar a carteira de estudante. E
quando vou para as ruas, busco soluções para tanta injustiça”. A conivência de
quem utiliza o serviço irrregular alimenta o mercado da fraude e a falta de
fiscalização deix livre quem pratica o ato ilícito sem ter medo das
penalidades.
A lei prevê punição para o crime de falsificação de
carteiras de estudante. O advogado Antônio dos Santos, 59 anos, faz questão de
frisar: “Fraudar carteira de estudante é uma violação tão séria quanto
falsificar carteira de motorista ou de identidade.” A utilização de um
documento falso caracteriza um delito e sua alteração para obter vantagens é
crime de estelionato, previsto no Artigo 171 do código Penal. A pena é de um a
cinco anos, além do pagamento de multa. O jovem que vai para as ruas pedir uma
reforma política e ao mesmo tempo comete crimes ilícitos vive em uma
contradição. “Reivindicar um país mais justo é um direito, agora forjar a
carteira de estudante pode ser comparado a um político corrupto que engana o
eleitor”, constata o advogado.
Quem utiliza um documento falsificado sabe dos riscos que
está correndo, mas isso não é suficiente para coibir a prática da fraude. A
estudante M.S, (que também prefere não revelar a identidade) 23 anos, acha
abusivo o valor cobrado no ingresso sem o desconto da meia-entrada. “Eu
falsifico como protesto, para que a lei seja mudada. A minha percepção é que
não estou roubando ninguém”. A jovem destaca que tem participado de todas as
manifestações que acontecem no país. “ A rua é o melhor lugar para mostrar
nossa insatisfação. Se a política não muda, o brasileiro segue dando seu ‘jeitinho’
para sobreviver”. O fato é que a falta de planejamento e de uma fiscalização
eficaz deixa o caminho aberto para os fraudadores tomarem conta. A opinião da
produtora Janine Lima, 46 anos, da agência Cinco, é que o valor cobrado do
ingresso não corresponde à realidade econômica do trabalhador. “Acho que os
ingressos são muito caros mesmo. Quem não tem dinheiro para pagar por um
espetáculo apela para as carteirinhas falsas”.
O usuário, sendo flagrado com o documento forjado, se
confirmado, enfrenta um processo judicial. Resolver a questão das carteiras de
estudante falsificadas é um dos objetivos do Congresso Nacional. Está em
tramitação o Projeto de Lei 4572/08, que limita a quantidade de ingressos
disponíveis para os beneficiários da meia-entrada. O projeto informa que apenas
40% dos ingressos poderão ser vendidos pela metade do preço. Atualmente, todos
os eventos devem disponibilizar quantidade ilimitada de ingressos para os
portadores de carteira estudantil. Outro aspecto apresentado pela nova lei é a
ampliação do direito à meia-entrada a jovens pertencentes a famílias de baixa
renda, com idade entre 15 e 29 anos e com renda familiar de até dois salários
mínimos. Também está prevista a regularização da emissão das carteirinhas. Elas
passariam a ser feitas apenas por três instituições: Associação Nacional de
Pós-Graduandos (ANPG), União Nacional dos Estudantes (UNE) e União Brasileira
dos Estudantes Secundaristas (UBES). Caberá ao governo federal, por meio do
Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), segundo o texto projeto
de lei, a responsabilidade de produzir um selo de identificação para evitar a
falsificação das carteiras, criando um modelo único do documento em todo o
país.
Após a lei aprovada para coibir e punir quem comete infrações,
o governo espera solucionar as fraudes, fazendo com que o cidadão fiquem mais
consciente, Burlar o sistema não muda a realidade e nem resolve o problema da
corrupção no Brasil. A ética de quem busca um país com mais igualdade e justiça
social não pode estar associada a atitudes ilícitas. Protestar para melhorias
em prol do coletivo é considerado um ato cívico que faz parte de qualquer
sociedade que conhece seus direitos e deveres.
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