Zélia Duncan: Um beijo só!

QUE NOME DAR À PALAVRA “indignação”, quando ela só serve pra manipular a vida e a sociedade, quando ela é apenas conveniente, quando ela não corresponde em nada a atitudes cotidianas?

Fico pensando, quando Fernanda e Nathalia receberam a cena do beijo em seus respectivos roteiros, o que vocês acham que elas fizeram? Gritaram, rasgaram, choraram de pavor, caíram numa gargalhada nervosa, ligaram uma pra outra, ou para as respectivas famílias, pra pedir permissão, pra pedir conselhos, pra pedir que não deixassem os amigos, filhos, netos e mesmo primos de segundo, terceiro e quarto grau, assistirem? Pediram desculpas a Deus?

Será que as pessoas não sabem que os gays também envelhecem, quando não são assassinados por monstros e sociedades homofóbicas e hipócritas? Pois tenho uma notícia muito louca para os “indignados”de plantão: os gays que conseguem envelhecer não são poucos não e, à medida que a vida passa, continuam sendo o que sua natureza lhes ofereceu, desde que nasceram eles são eles mesmos, isso é uma benção. Com seus companheiros, seus afetos, suas manifestações de carinho e companheirismo. São tantos preconceitos engessados num só. Pois beijo não é privilégio de jovens, magros, fortes, claros e heterossexuais não. Um beijo de amor é de graça e só com amor se paga! Aliás,  não tem preço, nem nunca terá. E não estamos podendo, nesse Brasil  que todo dia mostra sua cara feia, retrógrada e intolerante, abrir mão de nenhum beijo de amor que seja. Nem que seja pura dramaturgia numa novela.

De repente, me vem à cabeça o filme de Bruno Barreto, a partir da peça de Nelson Rodrigues, que se chama “O beijo no asfalto”. A vida de um homem vira desgraça, quando, ao presenciar um atropelamento, ele corre, se ajoelha e beija a vítima, que era também um homem, na boca, na hora de seu último suspiro. A cena é assistida por um jornalista inescrupuloso que, mancomunado com um delegado corrupto e violento, planta uma notícia falsa e justifica todos os atos mais vis a partir daí para que a farsa vire um fato e eles, os heróis, detentores da moral e da família. (Odeio essa frase, “pela família”, ora, qualquer ser humano tem família e luta por ela, as exceções confirmam a regra). Inventam que não só o autor do beijo era homossexual, como tinha um caso com o morto. E tudo se mistura na lama grossa da hipocrisia, da mentira, da ofensa, da sombra que toma conta dos dias. E o beijo era apenas e tão somente, um beijo. Um beijo que foi o último pedido daquele que se despedia da vida, sangrando no asfalto. E o homem, o único personagem sincero e decente , não lhe nega esse último pedido. Mas na vida real, tanto quanto na ficção, até algo que pode e deve ser visto como um ato de amor , num sentido amplo e misericordioso, vira escárnio e humilhação.

E se as pessoas não estão prontas para um beijo de misericórdia, claro que não estavam para o beijo de duas senhoras, personagens gays, numa novela. Porque elas são reais, elas somos nós. Como admitir que duas damas da nossa cultura façam um papelão desses? Lindas, bem vestidas, cheirosas, idosas, ricas e…gays? Sim, meu povo, e o  pior de  tudo isso… felizes, em paz. Durmam com esse barulho! Como sei que ninguém da multidão fundamentalista vai ter coragem de abrir um livro, ou ver um filme, com argumento de Nelson Rodrigues porque pode virar um espelho perigoso, saibam que o papel mais polêmico e gay do filme está nas mãos de outro ator sensacional, merecedor de todo o respeito, ninguém menos que Tarcísio Meira!

Penso que, quando Fernanda e Nathalia receberam a cena, passaram para a próxima página, continuaram lendo o roteiro naturalmente. Porque este é o ofício delas. Assim como gravaram a cena recente magistralmente e tantas outras, nesse caminho lindo e vitorioso. A naturalidade com que fizeram isso é a maior de todas as transgressões. É o que indigna os falsos e cretinos moralistas, é o que encanta quem gosta da vida, do ser humano e da arte de atuar.

Infelizmente, temos muito com o que nos indignar no Brasil a cada 5 minutos. Um beijo de amor, entre atrizes que são motivo de orgulho imenso para cada um de nós, não faz parte disso. Elas são oásis, miragem de amor e talento, possibilidade de evoluir e exercitar o pensamento com liberdade e, sobretudo, coragem. Seremos capazes um dia? Quem viver, verá… ou não.

Por falar em coragem, assistam o filme, leiam a peça! Vejam vocês, quem fazia parte do elenco quando a peça foi montada pela primeira vez? Pois é, Fernanda Montenegro.


Zélia Duncan é cantora e compositora. Das que dispensam maiores apresentações. ( Via: Caixa de Chocolate) http://caixadechocolate.com.br/2015/03/22/zelia-duncan-um-beijo-um-so/

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