Durante séculos vivemos em um mundo que tratava o negro
como mercadoria. A escravidão foi, ao lado do Holocausto, o mais horrendo dos
crimes contra a humanidade – e hoje qualquer ser humano com uma gota de amor na
alma sabe disso.
Mas por muitos e muitos anos não se sabia disso. Foi
preciso que alguns poucos herois começassem a perceber que havia alguma coisa
errada em tratar outro ser humano como mercadoria e se lançassem a dizer o que
pensavam para que a evolução engatasse uma marcha mais rápida.
Esses primeiros herois que enfrentaram a opinião pública
para dizer “péra, alguma coisa não está certa aqui” foram escurraçados, assim como
foram escurraçados os negros que ousaram se rebelar e lutar por liberdade e
igualdade.
Em seguida vieram os que diziam: “tem mesmo alguma coisa
errada aqui. Precisamos tratar o escravo com dignidade”, que já representavam
alguma evolução, mas que para os mais subversivos causavam apenas arrepio
porque falharam na missão de entender o verdadeiro recado: o problema não era a
forma como o escravo era tratado, o problema era que havia escravos.
Aos poucos a roda do progresso gira – e movidas pela paixão
e pelo desejo de justiça pessoas ordinárias fazem coisas extraordinárias em
nome dos avanços sociais, como Rosa Parks, a negra americana que se recusou a
ceder o lugar dela em um ônibus para um branco. Rosa foi presa, mas a história
trataria de colocá-la em seu devido lugar – assim como colocou em seu devido
lugar aqueles que exigiram que ela fosse presa.
Mulheres também tiveram que lutar por justiça, e pensar que
há pouco mais de 50 anos não nos era dado o direito a votar soa absurdo. Ainda
assim durante muito tempo aquelas que tentaram dizer “tem alguma coisa errada
aqui” foram marginalizadas e eliminadas. Por séculos a norma era entender a
mulher como inferior e não se questionar a norma. Mas aí, num belo dia, uma
alma evoluída ousa disputar algumas injustificáveis estruturas hierárquicas de
poder, e a porta da evolução é aberta a despeito da força que o conservadorismo
faça para fechá-la.
Aqueles que lutam para que conquistas sociais sejam
evitadas – e a história mostra exatamente quem são e onde estavam esses grupos
– nunca venceram a guerra ainda que tenham vencido algumas das batalhas.
A luta dos gays em nome de igualdade passa por uma fase
crítica no mundo todo. É aquela durante a qual a maioria já entende que não há
nada de errado com a ideia de dar a eles direitos iguais, mas ainda assim
reluta em aceitar publicamente. É a fase do “tudo bem desde que não dê
bandeira”, e do “tenho até amigos que são”.
É precisamente nessa hora, uma na qual fica evidente que a
transformação social não regredirá, que as vozes que se opõe ganham força e
histeria – como aconteceu com os que advogavam contra o fim da escravidão,
contra o direito ao voto feminino etc. Há impressionantes registros que hoje
soam patéticos e deprimentes de gente que a todo custo tentou impedir que as
conquistas sociais se efetivassem. Ao lado desses grupos estão sempre os
extremistas religiosos, a história teima em provar.
Tenho um trilhão de críticas à Rede Globo – que hoje só assisto por motivos de
Corinthians e de Fernanda Lima -, e ao papel que ela executa em nome do poder
corporativo, mas é preciso que se celebre quando uma emissora tão poderosa faz
bom uso da força que tem e se coloca ao lado do povo levantando discussões
pertinentes e em nome de conquistas sociais.
É quase inevitável que continuemos a evoluir (desde que,
claro, entendamos como estamos destruindo o planeta e mudemos o rumo
radicalmente). E é portanto inevitável que, com o tempo, os que hoje esperneiam
contra o beijo gay, contra o casamento gay, contra a adoção de crianças por
casais gays sejam vistos como aqueles que advogavam contra o fim da escravidão
ou contra o direito ao voto feminino.
O que me parece impressionante é que, dado o número de
vezes que cometemos as mais grotescas injustiças sociais com outros seres humanos,
ainda haja aqueles que teimem em dizer “não, não somos iguais coisa nenhuma” e,
com isso, se proponham a serem retratados pelas lentes da história como
repugnantes e monstruosos. Mas a verdade é que eles existem, têm cargos
politicos, lideram multidões.
Sintam-se à vontade para espernear. Façam, aliás, o barulho
que quiserem porque a história da humanidade prova que vocês nunca venceram e,
como ensinou Caravaggio, amor vincit omnia (o amor conquista tudo). No mais,
obrigada, Fernanda e Natália.
Retirado do Blog da jornalista Milly Lacombe
publicado: 22/03/2015
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