Obrigada, Fernanda e Natália por Milly Lacombe

Durante séculos vivemos em um mundo que tratava o negro como mercadoria. A escravidão foi, ao lado do Holocausto, o mais horrendo dos crimes contra a humanidade – e hoje qualquer ser humano com uma gota de amor na alma sabe disso.

Mas por muitos e muitos anos não se sabia disso. Foi preciso que alguns poucos herois começassem a perceber que havia alguma coisa errada em tratar outro ser humano como mercadoria e se lançassem a dizer o que pensavam para que a evolução engatasse uma marcha mais rápida.

Esses primeiros herois que enfrentaram a opinião pública para dizer “péra, alguma coisa não está certa aqui” foram escurraçados, assim como foram escurraçados os negros que ousaram se rebelar e lutar por liberdade e igualdade.

Em seguida vieram os que diziam: “tem mesmo alguma coisa errada aqui. Precisamos tratar o escravo com dignidade”, que já representavam alguma evolução, mas que para os mais subversivos causavam apenas arrepio porque falharam na missão de entender o verdadeiro recado: o problema não era a forma como o escravo era tratado, o problema era que havia escravos.

Aos poucos a roda do progresso gira – e movidas pela paixão e pelo desejo de justiça pessoas ordinárias fazem coisas extraordinárias em nome dos avanços sociais, como Rosa Parks, a negra americana que se recusou a ceder o lugar dela em um ônibus para um branco. Rosa foi presa, mas a história trataria de colocá-la em seu devido lugar – assim como colocou em seu devido lugar aqueles que exigiram que ela fosse presa.

Mulheres também tiveram que lutar por justiça, e pensar que há pouco mais de 50 anos não nos era dado o direito a votar soa absurdo. Ainda assim durante muito tempo aquelas que tentaram dizer “tem alguma coisa errada aqui” foram marginalizadas e eliminadas. Por séculos a norma era entender a mulher como inferior e não se questionar a norma. Mas aí, num belo dia, uma alma evoluída ousa disputar algumas injustificáveis estruturas hierárquicas de poder, e a porta da evolução é aberta a despeito da força que o conservadorismo faça para fechá-la.

Aqueles que lutam para que conquistas sociais sejam evitadas – e a história mostra exatamente quem são e onde estavam esses grupos – nunca venceram a guerra ainda que tenham vencido algumas das batalhas.

A luta dos gays em nome de igualdade passa por uma fase crítica no mundo todo. É aquela durante a qual a maioria já entende que não há nada de errado com a ideia de dar a eles direitos iguais, mas ainda assim reluta em aceitar publicamente. É a fase do “tudo bem desde que não dê bandeira”, e do “tenho até amigos que são”.

É precisamente nessa hora, uma na qual fica evidente que a transformação social não regredirá, que as vozes que se opõe ganham força e histeria – como aconteceu com os que advogavam contra o fim da escravidão, contra o direito ao voto feminino etc. Há impressionantes registros que hoje soam patéticos e deprimentes de gente que a todo custo tentou impedir que as conquistas sociais se efetivassem. Ao lado desses grupos estão sempre os extremistas religiosos, a história teima em provar.

Tenho um trilhão de críticas à Rede Globo  – que hoje só assisto por motivos de Corinthians e de Fernanda Lima -, e ao papel que ela executa em nome do poder corporativo, mas é preciso que se celebre quando uma emissora tão poderosa faz bom uso da força que tem e se coloca ao lado do povo levantando discussões pertinentes e em nome de conquistas sociais.

É quase inevitável que continuemos a evoluir (desde que, claro, entendamos como estamos destruindo o planeta e mudemos o rumo radicalmente). E é portanto inevitável que, com o tempo, os que hoje esperneiam contra o beijo gay, contra o casamento gay, contra a adoção de crianças por casais gays sejam vistos como aqueles que advogavam contra o fim da escravidão ou contra o direito ao voto feminino.

O que me parece impressionante é que, dado o número de vezes que cometemos as mais grotescas injustiças sociais com outros seres humanos, ainda haja aqueles que teimem em dizer “não, não somos iguais coisa nenhuma” e, com isso, se proponham a serem retratados pelas lentes da história como repugnantes e monstruosos. Mas a verdade é que eles existem, têm cargos politicos, lideram multidões.


Sintam-se à vontade para espernear. Façam, aliás, o barulho que quiserem porque a história da humanidade prova que vocês nunca venceram e, como ensinou Caravaggio, amor vincit omnia (o amor conquista tudo). No mais, obrigada, Fernanda e Natália.

Retirado do Blog da jornalista Milly Lacombe
publicado: 22/03/2015

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