Se há chance de a homofobia ter matado Peterson, é porque o
Brasil, de fato, hostiliza relações entre pessoas do mesmo sexo
Um elenco para lá de talentoso cantava a vida de Cássia
Eller, anteontem à noite, no Rio. A trajetória da cantora de voz rascante e
olhar tímido, reproduzidos à perfeição pela protagonista do musical, Tacy
Campos, é um libelo à liberdade de amar. No palco, as paixões desfilam com a
naturalidade que merecem ter. Num dado momento, a plateia até ensaiou um
alívio, porque uma impossibilidade da convivência de Cássia e Maria Eugênia, o
casamento civil, foi superada na década seguinte à morte da cantora, em 2001,
após decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ). Infelizmente, na saída do teatro, a brutalidade da vida real
tomou o ar, sem cerimônia. Horas antes, morria, em Ferraz de Vasconcelos (SP),
Peterson Ricardo Teixeira de Oliveira, o estudante de 14 anos que teria sido
agredido dentro da escola por ser filho de um casal homossexual.
O episódio comoveu corações que creem na igualdade e
renegam o ambiente de intolerância, que se alastra pelo país em discursos e
atos de autointitulados homens de Deus. Com Peterson internado, os pais teriam
descoberto perseguições e agressões físicas aplicadas por colegas. A Secretaria
estadual de Educação nega briga em sala de aula no dia em que o estudante foi
hospitalizado. A polícia investiga.
Qualquer que seja o resultado do inquérito, a sociedade
brasileira já é culpada. Se a hipótese de a homofobia estar por trás da morte
do adolescente causou mais indignação do que incredulidade, é porque o Brasil,
de fato, hostiliza as relações entre pessoas do mesmo sexo.
Setores conservadores da política e da religião tratam a
homossexualidade como doença, diagnóstico banido pelo Conselho Federal de
Psicologia em 1985. Insurgem-se contra o casamento gay, instituído em resolução
do CNJ há dois anos. Ameaçam proibir a adoção por casais do mesmo sexo e
restringir a definição de família aos pares formados por homem e mulher. E
permitem uma escalada de violência homo e transfóbica, que tirou a vida de 312
pessoas só em 2013, segundo o Grupo Gay da Bahia. O assunto até mereceu
referência em texto sobre o Brasil no recém-lançado informe da Anistia
Internacional sobre direitos humanos no mundo em 2014-2015.
Peterson morreu no mesmo dia em que, ao sancionar a Lei do
Feminicídio, Dilma Rousseff lembrou o país da ocorrência dos crimes de racismo
contra os negros e de intolerância e violência contra os LGBT. “Existem
brasileiros que enxergam como exagero essa lei. Consideram excessivas leis que
punem os racistas, porque acham que não há racismo no Brasil; não veem razão
para leis que punam a violência contra a população LGBT, porque acham que a
homofobia não é um problema relevante... Essa visão do mundo, ela não é real e
nós não a aceitamos”, declarou a presidente da República.
Que não sejam “Palavras apenas/ Palavras ao vento”, como
nos versos da canção de Moraes Moreira e Marisa Monte imortalizada na voz de
Cássia Eller. Na campanha à reeleição, Dilma prometeu empenho para aprovar a
legislação que criminaliza a homofobia. Um texto de 2006 foi arquivado no
Senado no início deste ano, após tramitar, sem avanços, por duas legislaturas
seguidas. A retomada do projeto, que sofre resistência da bancada evangélica e
também do Exército, seria justa homenagem a tantos brasileiros que tombaram em
razão da discriminação homicida que envergonha o país.
Flávia Oliveira é jornalista, tem uma coluna no Jornal O
Globo, e também participa do Programa Estudio i, no canal Globo News.
11/03/2015
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