O melhor das idades - crônica Paloma Jorge Amado

Adoram chamar a fase da maturidade de melhor idade.
Lembro de uma entrevista que fizeram com papai para a Revista da Melhor Idade. 
-- Que mensagem o senhor daria para os colegas da Melhor Idade?
-- O que é isso, minha filha?
-- A Terceira Idade, o senhor não sabia que se chama assim?
-- Velhice, você quer dizer?
-- Não se usa mais este termo...
Ele a interrompeu:
-- A velhice é uma merda! Isto é tudo que tenho a dizer, pode publicar.
Ela não publicou.
Ele tinha razão em não aceitar a expressão. É evidente exagero chamar de idade melhor aquela em que começamos a descida, na curva da vida. Mas é exagero também dizer que é uma merda. Ele mesmo não achava isso, apenas se irritava por seus problemas de saúde o impedirem de fazer muitas das coisas que mais gostava. Dizia:
-- É a PVC...
-- O quê?
-- A Porra da Velhice Chegando.

A verdade é que crescemos, aprendemos coisas, evoluimos, erramos pra burro e aprendemos ainda mais com os erros. Vamos ficando bonitos, cada vez mais ativos e capazes para tudo quanto há de bom, do trabalho ao prazer. Este é o auge, o pico da curva. Temos quarenta anos, conquistamos muito, queremos mais e... Começamos a temer o declínio. Este medo desequilibra o que vinha tão bem.
Querer parar o tempo, cristalizar a imagem para sempre através de cirurgias e procedimentos que paralizam e incham o corpo, deformando e tirando a expressão, é prática mais do que comum. Traz felicidade? Ajuda a prosseguir no processo da vida?
Vamos brincar de estátua! Quem se mexer perde. O risco de, além dos músculos, paralizar a vida, perder o prumo, virar uma caricatura de nós mesmos, isso me preocupa.

Chegando aos cinquenta, continuamos bonitos, ativos, imaginativos, em plena capacidade intelectual. Uma dorzinha no joelho, talvez, para os mais gordinhos, umas rugas, cabelos ficando grisalhos. Como ficam lindos os homens com os cabelos acinzentados. Muitos não acreditam nisso, pintam de preto asa da graúna, ficam parecendo bonecos de ventríloco. Que mulher não se deixa atrair por uma careca bem cuidada? Melhor que certos implantes e perucas. Da mulher exigem que se mantenha com corpinho de 20, tudo em cima, peitões da moda, duros como bolas de soprar.

Conheço um médico, metido a galã e conquistador, casado com mulher de sua idade, médica ela também, de beleza agradável e cuidada. Ao chegar aos cinquenta, ele resolveu que a mulher deveria "dar uma recauchutada" (" não podendo ter um carro novo, recauchutamos o velho", palavras dele). Ela não queria, achava que estava bem, tinha medo de mudar as feições. Sabem o que ele fez? Quando a mulher se internou para uma histerectomia, pediu a um colega cirurgião plástico que fizesse de uma só tacada, barba, cabelo e bigode, hum, hum..., quero dizer: cara (lifting), peito, barriga. Foram 9 horas de cirurgia. Ela, inteiramente inocente do assunto, acordou toda enfaixada, os olhos cobertos, ficou desesperada. Depois aceitou, não queria perder o marido. Pena que ficou feinha de dar dó, não estava jovem, era um arremedo de mocinha. Quem me contou tudo isso foi o próprio marido, telefonou para se vangloriar do fato, até hoje não sei porque me escolheu para partilhar seu ato perverso.
-- Mas porquê?, eu perguntei horrorizada.
-- Ora, todos os meus amigos estão se separando e casando com meninas de vinte. Eu gosto de minha mulher, então a transformei em uma de vinte, para que ela não se sinta mal quando sairmos todos juntos.
Pois é... Um crime que daria cadeia, perda da licença para exercer a profissão (ele e o cirurgião que foi cúmplice), se ela quisesse. Ela não quis. Todos parabenizaram o marido pelo feito e ficou por isso mesmo. Já se passaram dez anos, nunca mais os vi. Fico pensando como ela estará? Certamente com novas intervenções, pois é necessário manter-se com 20.

Penso que está na hora de abrir uma discussão sobre o porquê do pânico de envelhecer. Ao mesmo tempo em que é necessário trazer à luz todas as vantagens que se tem em ter vivido e aprendido tanto. Fazer com que nós,os "idosos legais" (o Brasil instituiu que aos sessenta anos somos idosos!...), saibamos usufruir de muitas coisas mais que apenas parar em vaga reservada ou dançar em bailinhos de dar dó, numa segregação evidente.

Aos sessenta e três anos, a completar muito em breve, eu: penso com mais lucidez, mesmo não lembrando sempre de tudo; sou mais paciente; tenho mais imaginação e mais tempo para por em prática os projetos que ela me sucita; amo melhor; sinto mais prazer, conseguindo usufruir de pequenas coisas. Aos sessenta anos, me dou conta de todos os pequenos milagres que me rodoeiam diariamente, me fazendo sorrir. Os milagres atemporais da vida, ao alcance de qualquer idade.


Paloma Jorge Amado 20/07/2014. 



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