Torneio do saber revela histórias de superação


Valor Econômico Por Marli Olmos | De São Paulo  21/11/12
Daniel Wainstein/Valor / Daniel Wainstein/Valor
Wandrew-Ney adiou o plano de prestar vestibular para engenharia, porque prefere aprimorar o aprendizado técnico. Seu sonho é construir um orfanato
O drama do aluno que se apoia na experiência de luta do professor para superar a infância triste e miserável poderia servir de inspiração para o cinema ou a literatura. Mas essa é a história real de Wandrew-Ney e Jean. Ambos nasceram em lares desestruturados, mas nunca deixaram de perseguir o aprendizado. Há dois anos, Wandrew-Ney chamou a atenção do professor Jean. Ao descobrir que o jovem talentoso que aparecia cansado e sujo nas aulas de desenho no Senai, morava nas ruas, o mestre decidiu adotá-lo. Tornou-se seu fiel instrutor e cuidou de seu treinamento para a Olimpíada do Conhecimento, a maior competição de ensino técnico do Brasil.
O nome esquisito do aluno é obra do pai que, embriagado, quis misturar o nome da mãe da criança (Dreyed), do outro filho (Dawn) e o seu próprio (Sidney). "Mesmo assim ficou errado", diverte-se Wandrew-Ney de Souza Pereira, no intervalo do torneio que, na semana passada, levou 640 estudantes do Senai e Senac ao parque de exposições Anhembi, em São Paulo.
Wandrew-Ney começou a trabalhar cedo. Aos seis anos, o garoto de Iranduba, região metropolitana de Manaus (AM), batia de porta em porta para vender um desinfetante produzido em casa pelo padrasto. Conseguia, porém, frequentar a escola, que nunca mais abandonou. O amazonense teria tido mais cinco irmãos não fossem as surras que a mãe levou do marido. Aos 14 anos, ele decidiu sair de casa.
Na mesma época em que o menino do Amazonas vendia desinfetante caseiro em domicílio, em outra parte do Brasil, em Goiás, Jean Machado da Silva, então com 20 anos - a idade de Wandrew-Ney hoje -, fugia de casa depois de ver a mãe morrer, assassinada pelo padrasto. Mudou-se para Ubatuba, litoral de São Paulo, onde foi amparado por uma tia.
Como o amazonense, Jean jamais abandonou os livros e sempre trabalhou muito. Ainda em Goiás, aos 15 anos chegou a ter dois empregos. Certo dia, decidiu sair em busca do pai, que não conhecia. Foi parar em Manaus, onde vivia o petroleiro João Cassiano, que acolheu o filho e o ajudou a continuar os estudos, até o curso superior, de desenho industrial. Hoje, aos 34 anos, o professor do Senai de Manaus também participou da Olimpíada do Conhecimento, como avaliador.
Wandrew-Ney chegou a pedir amparo a uma tia ao sair de casa. Mas a relação não deu certo. O jeito foi continuar na luta e morar onde era possível. Dividiu espaço de uma casa com vendedores de churrasquinho, maneira que encontrou para ganhar a vida depois de entregar marmitas. Manteve, porém, a obsessão pelos estudos até quando faltava dinheiro para chegar à escola. Na época, teve a ideia de aproveitar os intervalos das aulas para limpar para-brisas em semáforos. Com os trocados que ganhava, pagava a condução.
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Pollyana não pretende ser pedreira, mas aprender a pôr a mão na massa amplia o conhecimento na área de edificações
"Você vai ficar louco de tanto estudar", diziam os outros "lavadores" no semáforo. Mas Wandrew-Ney ignorou os conselhos da turma que, por "recomendação dos pais", via mais futuro no trabalho informal do que no aprendizado. Para ele, a escola foi a melhor parceira nas jornadas em que fazia de tudo um pouco - de ajudante em obra a vendedor de coco.
Sofridas batalhas pelo aprendizado não são, no entanto, exclusividade desse amazonense. "Dos 24 milhões de jovens do Brasil, 2,5 milhões estão nas universidades e 3,4 milhões na educação profissional. Mas 18 milhões não têm perspectiva de futuro", destaca o diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi.
Sempre foi clara, no ambiente educacional do país, a preferência dos que têm condições para estudar pelos cursos universitários. Dados do Senai indicam que a educação profissional é a opção de 6,6% dos jovens brasileiros, enquanto nos países ricos a média é de 40%. Na Alemanha, o índice chega a 53% e no Japão, 55%. "Precisamos melhorar nossa matriz educacional", destaca Lucchesi.
Na história de Wandrew-Ney, a perspectiva de alçar voos mais altos surgiu quando ele começou a vender chocolates. Ao perceber sua habilidade com desenhos, o fornecedor de doces lhe encomendou o projeto de uma maleta para carregar bombons. Até então, ele só tinha traçado figuras de gente e bichos. Mas o projeto saiu perfeito. Ele comprou madeira, montou a caixa e a vendeu por R$ 40.
"Sabia que o Senai abriu inscrições para bolsas?", perguntou-lhe o vendedor dos bombons. Foi a dica que mudou o rumo da vida do jovem, que passou facilmente pelo processo de seleção. Procurar uma nova moradia trazia o risco de se deparar, de novo, com a falta de dinheiro para a condução. Por isso, decidiu morar na rua e fez do terminal de ônibus o teto para dormir e estudar para o curso de desenho técnico mecânico. Na mochila guardava algumas roupas, os livros e o saco de pano que servia de toalha na hora do banho, pelo qual pagava R$ 1.
Esthefson, um dos professores do Senai, foi o primeiro a puxar papo na tentativa de que o garoto de cara amarrada falasse sobre a vida. Já perto dos 18 anos, Wandrew-Ney foi parar na casa dos pais desse mesmo professor, que, pela primeira o fez sentir-se numa família. Enquanto isso, Jean, já com três filhos pequenos (um deles adotivo), conversava com a esposa sobre a ideia de "adotarem" mais um, de 18 anos. Jean queria garantir o bem-estar do jovem, no qual não só espelhava a própria vida como também via chances de sucesso na Olimpíada do Conhecimento.
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Ao ver que participantes da olimpíada anterior recebiam propostas de emprego, Willian decidiu: “Quero isso para mim”
Histórias do encontro de jovens com uma profissão encheram o pavilhão de exposições do Anhembi na semana passada. Foram sete dias de torneio, cinco dos quais integralmente dedicados às provas.
Ao chegar ao Anhembi, a pernambucana Pollyana Rocha recordou a advertência que costumava ouvir do pai, antes de ele morrer, no início do ano: "Tá louca, menina; vai querer ser pedreira?" Ela foi a única mulher a disputar a modalidade nessa 7ª edição da Olimpíada e conseguiu ganhar certificado de excelência.
A pernambucana saiu tensa no primeiro dia de provas. Havia conseguido concluir a primeira etapa da lareira, projeto do Senai de Curitiba, sorteado para a prova. Mas faltou tempo para limpar as paredes internas. Cabisbaixa, lamentou: "Amanhã será difícil; o cimento vai endurecer". Ao contrário do que o pai temia, Pollyana não almeja ser pedreira. Com o curso de técnica em edificações, pretende cuidar de obras. Mas a certificação do Senai, instituição referência amparada pela indústria, exige que ela ponha a mão na massa.
Rigorosos com horário e critérios, os avaliadores passaram os cinco dias, de terça a sábado, com pranchetas nas mãos. As regras incluíam concentração durante as provas, o que significava não conversar com jornalistas ou visitantes que circulavam pelos 76 mil metros quadrados do pavilhão, no qual se espalharam canteiros de obras, escritórios, máquinas, robôs, automóveis, salão de cabeleireiro, mesas de jantar, paredes revestidas de azulejos, fornos de confeiteiro, camas hospitalares e demais instalações sobre as quais talentos de 16 a 21 anos de idade dedicaram os últimos dias. Os melhores participarão de torneio mundial, na Alemanha, no próximo ano.
Na última edição do torneio internacional, o World Skills, em 2011, em Londres, o Brasil ficou em segundo lugar, com seis medalhas de ouro, três de prata, duas de bronze e sete certificados de excelência. A delegação brasileira só perdeu para a Coreia, mas superou as equipes de países como Japão, Suíça e Cingapura.
As medalhas de ouro, prata e bronze distribuídas no domingo à noite marcaram a recompensa da competição. Mas o melhor prêmio, disponível a todos os participantes, é o mercado de trabalho. Nos cálculos do Senai, até 2015 o Brasil terá de formar 7,2 milhões de profissionais de nível técnico só para atender à demanda da indústria.
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Inclusão no mercado de trabalho: uma turma “doce” toma conta da padaria na Olimpíada do Conhecimento, em SP
Comércio e serviços seguem o mesmo caminho. Quem frequenta o salão onde a gaúcha Caroline Armendaris trabalha passou a dar preferência à jovem que acaba de concluir o curso do Senac, como ela mesma conta. Filha e irmã de cabeleireiros formados no Senac, Carol passou meses preparando-se para as provas que, somente no primeiro dia, exigiram penteado de noiva e o corte masculino fashion com coloração. Ao fim do terceiro dia, a moça posava para fotos ao lado da sua bancada, onde se acomodaram cabeças de bonecos com diversas transformações. Caroline voltou ontem para Canoas com a medalha de prata na Olimpíada do Conhecimento.
Ao lado das bancadas dos cabelos, a organização da enfermagem acomodou bonecos que receberiam transfusão de sangue. No dia seguinte, as provas incluíram 54 atores. "Cê vai ficá boa, muié", dizia o homem com jeito caipira no papel do marido da senhora que acabara de chegar de uma cirurgia.
Cercadas por três avaliadores, Daniela Bodel, de 20 anos, e Silvane Schelhase, de 21, davam orientações sobre medicamentos e como medir a pressão com precisão. Mas parte mais difícil da prova foi mostrar como se faz a limpeza da bolsa de colostomia. Silvane deixou a roça e a família para percorrer os 459 quilômetros que separam o município de Santo Ângelo de Porto Alegre em busca do curso profissionalizante. Como outros estudantes, a competição também lhe trouxe a experiência da primeira viagem de avião.
Na área da polimecânica, o também gaúcho Willian Oliveira percebeu "o alto nível dos concorrentes". O objetivo não era ganhar medalha, mas a perspectiva de trabalho. "Quando vi que os colegas que participaram da última olimpíada [no Rio, há dois anos] receberam boas ofertas de emprego decidi me focar nisso", diz. De família "muito pobre mesmo", como diz, não teria condições de pagar a mensalidade do curso, que custa pelo menos R$ 500. Por isso, aproveitou as vagas para bolsistas e quer, agora, aprender línguas, como mandarim, espanhol e alemão, para ampliar chances na profissão.
Há também quem abriu mão do patrimônio com conforto para abraçar uma vocação. O mineiro Mateus Naranjo surpreendeu a família, dona de empresa de alimentação, ao optar pelo curso de garçom. "Mas não quero ser apenas mais um na profissão", diz, logo depois da prova que testou sua habilidade para flambar carnes.
Além do cheirinho de pão, na área de panificação chamou a atenção a doçura dos dez estudantes com síndrome de Down. A maranhense Marina de Pádua, de 28 anos, foi selecionada pelo Senai de São Luis para os cursos de inclusão, agregados este ano à Olimpíada do Conhecimento.
Marina mostrou, na apostila que não largou, fotos dela mesma em aula, que lhe serviriam de guia nas várias etapas de preparo do pão francês. Deu certo. Ela tirou medalha de bronze. No terceiro dia da competição, Corina, mãe de Marina, colava o olhar no vidro através do qual se podia ver a seleção de pães doces preparados pela filha. Marina tinha, portanto, razão quando usou a lógica nas respostas à entrevista. "Sua mãe também é padeira?". "Não". E o que ela faz? "Só olha".
Próximo à bancada de Marina, Wendrew-Ney concentra-se no projeto de um motor de avião em CAD, sigla em inglês (computer aided design) usada nos desenhos com o auxílio do computador. O amazonense já leciona. Dá aulas de matemática aplicada mecânica, leitura e interpretação de desenho técnico e metrologia.
Wendrew está bem distante do ambiente de marginalidade que via nas ruas e que "já mata" antigos colegas, como conta. Agora, além das aulas, atende a encomendas de projetos, pelos quais cobra por hora. Embora já tenha recebido proposta de emprego fixo, ele prefere trabalhar dessa forma para manter dedicação aos estudos. E também fidelidade ao esforço de Jean.
Wendrew esteve a um passo de obter certificado de excelência na Olimpíada. Jean culpa o blecaute no Anhembi na última prova. Mas, agora, não há mais com o que se preocupar. Pequenos obstáculos como esse não devem ameaçar o crescimento de seu aluno, que já venceu batalhas bem mais perigosas.

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