Valor Econ
Valor Econômico 04/05/12
Por Amir Labaki | De São Paulo
A obra de Jorge Amado sempre foi fonte de inspiração para o cinema e a televisão
É notável que ainda não tenhamos uma grande biografia ou um documentário em longa-metragem dedicados a Jorge Amado (1912-2001). Sua obra foi sempre inspiração para nossa produção audiovisual, no cinema e na TV, com alguns altos e muitos baixos.
Contudo, Jorge Amado foi tão generoso para com as câmeras de nosso cinema documental quanto para com o ficcional. Retrataram-no cineastas tão díspares quanto Ruy Santos e Glauber Rocha, Maurice Capovilla e João Moreira Salles, passando pela dupla David Neves e Fernando Sabino, na certeira série de documentários curtos que realizaram em 1974 e é de todos os principais registros o único disponível em DVD.
Trechos de alguns desses filmes podem ser vistos na exposição "Jorge Amado e Universal" recém-aberta no Museu da Língua Portuguesa, em cartaz em São Paulo até 22 de julho próximo, seguindo para o Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador. Também dentro da febre de homenagens de seu centenário, a ser completado em agosto próximo, destaca-se sobretudo o luxuoso volume em capa dura que devolve à circulação seu anedótico e acronológico "Navegação de Cabotagem" (Companhia das Letras, 508 págs., R$ 89,90).
Seu subtítulo, "Apontamentos Para Um Livro De Memórias Que Jamais Escreverei", já deixa claro as modestas intenções: uma espécie de autorretrato pelos outros. A obrigatória leitura torna-se ainda mais fascinante se complementada pelo ciclo de volumes memorialísticos escritos por sua companheira Zélia Gattai (1916-2008).
Cumprida essa lição de casa biográfico-literária, os futuros documentaristas encontrarão ao menos cinco excelentes pontos de partida audiovisuais, todos tendo contado com a amistosa colaboração do escritor baiano, em depoimentos e filmagens em seus domínios.
Sua infância, dos primeiros anos no sul da Bahia (nascido em Itabuna, criado em Ilhéus) e do período escolar já em Salvador, está no centro de "O Menino Grapiúna", título emprestado de seu breve livro de primeiras memórias, de 1982. Ruy Santos começou a realizá-lo em 1985, quando do lançamento de "Tocaia Grande", mas não conseguiu terminá-lo até sua morte, em 1992. O média-metragem foi finalizado apenas em 2005, com o reforço de entrevistas complementares.
"Pronto, você refez meu livro", exclamou Jorge ao assistir a "Bahia de Todos os Santos", realizado em 1974 por Maurice Capovilla para a primeira e mais brilhante fase do Globo Repórter. Capovilla recriou e atualizou o guia homônimo de Salvador publicado 30 anos antes por Jorge Amado.
De sua casa mítica no Rio Vermelho, Jorge Amado depõe sobre a força cultural vinda da miscigenação e sobre a potência baiana na música, nas artes visuais e nas letras. Mais adiante, ao lado de Zélia, ei-lo lembrando-se de sua chegada à cidade, vindo de Ilhéus.
Rodado no mesmo ano por Neves e Sabino, "Na Casa de Rio Vermelho" concentra-se sobre o cotidiano repleto de gente de Jorge e Zélia, entre familiares, amigos e visitantes. Nenhum registro captou melhor os desafios impostos pela fama e pela proverbial cordialidade ao dia a dia do escritor.
Produzido pelo setor de Rádio e TV da Embrafilme em 1977, "Jorjamado no Cinema" de Glauber Rocha, é o retrato menos conhecido e dos mais reveladores, em duplo sentido. Realizado entre o curta experimental "Di Glauber" (1977) e as participações televisivas de Glauber no programa Abertura (1979), situa-se estilisticamente entre ambos: inquieta câmera na mão, turbulenta banda sonora (entrevistas de Jorge, ruído ambiente, "'S Wonderful" por João Gilberto), Glauber onipresente, em voz ou imagem.
Eis o Jorge Amado doméstico e o escritor do mundo. Na primeira parte, Glauber o entrevista, na sala repleta de quadros e esculturas de seu apartamento do Rio, sobre a infância, o impacto de Salvador, o começo da vida literária e a influência do modernismo paulista e do ciclo regionalista pernambucano. Na segunda, acompanha-o na pré-estreia da adaptação de "Tenda dos Milagres" por Nelson Pereira dos Santos e na abarrotada noite de autógrafos de "Tieta do Agreste". Num raro tributo, Glauber saúda seu velho mestre baiano.
Por fim, mais ensaio do que retrato, "Jorge Amado" (1995) de João Moreira Salles, arrisca uma interpretação crítica da obra do autor de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" à luz da teoria sociológica da "democracia racial" de Gilberto Freyre. "Jorge Amado sempre foi um grande otimista da mistura", escreveu a argumentista do filme, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz. O documentário foi recusado pela TV francesa, que o encomendara. Jorge Amado parece pronto para seu "close-up".
Amir Labaki é diretor-fundador do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários.
E-mail: labaki@etudoverdade.com.br

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